Você já parou para observar o ritual? O cão abaixa a cabeça, seleciona cuidadosamente uma folha de grama mais larga — geralmente as do gênero Paspalum ou Cynodon dactylon (a popular Grama-Seda) —, mastiga com certa urgência e, minutos depois, o desfecho costuma ser previsível: o reflexo do vômito. No consultório, essa é uma das queixas mais frequentes. Tutores chegam alarmados, acreditando que o animal está intoxicado ou sofrendo de uma dor abdominal aguda. No entanto, a etologia e a gastroenterologia canina nos mostram que o buraco é bem mais embaixo, envolvendo desde herança evolutiva até o equilíbrio da microbiota intestinal. Historicamente, classificamos cães como carnívoros, mas a verdade biológica é que eles são carnívoros facultativos ou onívoros oportunistas. Se olharmos para os lobos cinzentos (Canis lupus), ancestrais diretos dos nossos pets, estudos de coprologia revelam que entre 2% a 10% do conteúdo estomacal desses animais selvagens consiste em matéria vegetal. Eles não comem grama apenas por “instinto de vômito”, mas porque seus ancestrais ingeriam o conteúdo visceral de suas presas, que eram herbívoras. A mecânica do alívio e a motilidade gastrointestinal Existe uma distinção técnica crucial entre o cão que ingere grama de forma recreativa e aquele que o faz por uma necessidade fisiológica imediata. Quando o animal apresenta um quadro de gastrite, refluxo biliar ou a presença de corpos estranhos (como excesso de pelos), a grama atua como um agente mecânico. As bordas serrilhadas e a textura fibrosa das folhas irritam levemente a mucosa esofágica e gástrica, estimulando o reflexo vagal que leva à emese (vômito). Nesse cenário, a grama funciona como uma “escova” interna. Ela se entrelaça em materiais indigestos, facilitando a expulsão. Se o seu cão busca a grama de forma frenética, esticando o pescoço e lambendo os beiços antes de comer, ele provavelmente está lidando com náusea ou hiperacidez. O papel da fibra e o microbioma Por outro lado, muitos cães comem grama e não vomitam. Aqui entramos no campo da nutrição funcional.
A grama é uma fonte riquíssima de fibras insolúveis, como celulose e hemicelulose. Em dietas excessivamente processadas ou com baixa densidade de fibras, o organismo canino pode sinalizar uma carência. Fermentação e Ácidos Graxos: A fermentação de certas fibras no cólon produz ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), essenciais para a saúde dos colonócitos (células do intestino grosso). Trânsito Intestinal: A fibra auxilia na formação do bolo fecal e na motilidade, prevenindo a constipação e ajudando na expulsão de parasitas intestinais. Lembro-me de um caso clínico de um Golden Retriever que apresentava um quadro crônico de coprofagia (ingestão de fezes) e ingestão excessiva de grama. Após uma análise detalhada da dieta, percebemos que, embora a ração fosse de alta qualidade, o teor de fibra bruta era insuficiente para o trânsito intestinal lento daquele indivíduo específico. A introdução de fibras vegetais controladas na dieta reduziu drasticamente a busca desesperada por gramado.